Blog Crônica

Naan, naan, naan, naaaaan!!!

No banheiro da estação de trem, enquanto carregava o celular – sim, fora o único lugar em que achara uma tomada -, um senhor com o cabelo desgrenhado me abordou ao me ver com duas sacolas cheias de naan – pão de formato arredondado, achatado e crocante, típico da província de Xinjiang, no noroeste da China.

Antes de tirar esta foto, uma outra pessoa havia tirado uma às escondidas. Ao perceber o “furto” indevido de sua imagem, o vaidoso vendedor de pães se aprumou e pediu que fizesse uma outra, mas com ele devidamente preparado.

Aliás, abrindo dois parênteses, um para dizer que o naan anda bastante popular nas ruas de Guangzhou e Shenzhen, pois é cada vez mais corriqueiro ver imigrantes Uyghurs, da província de Xinjiang, vendendo esse tipo de pão nas ruas; o outro, é para comentar no que nós, brasucas, com um pouco de criatividade, transformamos o naan: basta acrescentar molho de tomate, muçarela e óregano, levar ao forno  e eis uma pizza brotinho pronta para ser devorada.

Padaria ambulante: pão fresquinho a cada meia hora – Shenzhen, Guangdong

Após uma sessão de incessantes perguntas e explicar onde havia comprado tantos pães, o velhinho aproximou o rosto do meu, e com os olhos esprimidos esforçou-se para extrair as minhas feições de entre a penumbra do local e as sombras de suas cansadas vistas, inquirindo inocentemente se não era um deles, visto que conversávamos em chinês.

Ao saber minha origem, a conversa arredondou-se e rolou para o campo de futebol, especificamente para o da Copa de 2014. Segundo sua opinião, não seria fácil para o Brasil. Logo em seguida, o zelador do banheiro,  trajado por um uniforme azul, bem conservado – já que este era maior que a sua medida – aproximou-se para participar da mesa redonda, ao mesmo tempo que deslizava opiniões pelo chão com o esfregão. Aproveitando que os dois chineses embolaram-se numa conversa sem fim, desconectei o carregador do celular da tomada e tentei sair disfarçadamente numa espessa nuvem de fumaça de cigarro que se espraiava para fora do banheiro.
Mal dei três passos e o velhinho veio para o meu lado a fim de reatar a prosa.
Ni zai shanghai shenme jingshang?
Embora desconhecesse a última palavra, intui que ele gostaria de saber a que negócio me dedicava. Fingi não entender. Desculpei-me e me perdi no mar de gente do saguão de espera da estação. 

Era 4 de abril, dia de limpar tumbas e fazer oferendas aos ancestrais, também conhecido como o Dia de Todas as Almas – ou seja, era o Dia dos Finados dos chineses. Por conta disso, teria que esperar três horas até dar o horário de embarque. O fluxo de passageiros nos feriados da China transforma a mais singela viagem na mais populosa aventura.
Sem lugar para sentar, recostei-me num canto do saguão, empoleirado numa barra de metal rente ao chão. Antes que a memória se congestionasse de informações, busquei o significado de jingshang, após algumas combinações até acertar como escrevê-la, num dos dicionários chineses que tenho no celular.

经商[jingshang]: empreender negócio

Por um momento me perdi a observar o ideograma shang: 商 que significa discutir, debater e comercializar.

商 [shang]: comerciante

A comparação foi inevitável e não precisou muito esforço para visualizar as feições de um chinês projetar-se do ideograma-caricatura. Poderia ter empregado o termo asiático, porém o idioma em questão é o mandarim e sabe-se perfeitamente bem que o comércio está no “shang” do povo chinês – não resisti ao trocadilho mnemônico.
Fatigado pela espera, abracei as três horas restantes e adormeci com o fim da tarde. Despertei de um sonho estranho, passado no banheiro da estação, já não tendo mais certeza da existência real – ou seria surreal – do velhinho que me abordara para passar seu tempo de espera a bater papo.

Admirador da cultura chinesa, tenho me esforçado para desmistificar e diminuir as distâncias entre esses dois países promissores perante o atual cenário econômico mundial: Brasil e China. Estudo mandarim desde 1997. Autodidata, acredito que não existam atalhos para o conhecimento. Não obstante, o exercício da aprendizagem, em si, e a perseverança encurtam caminhos, aumentam a concentração e tornam o percurso como o de um passeio matinal ensolarado. Além de atuar como tradutor-intérprete, sou consultor e intermedio negócios na área de importação-exportação.

6 comentários em “Naan, naan, naan, naaaaan!!!

  1. Se colocar molho de tomate, queijo muzzarela com orégano nos naans, temos pizza!

  2. Adoro conhecer esses”desenhos” que se formam nos caracteres e que remetem ao significado deles. Acho que seria tao mais fácil se aprendêssemos por esse lado, pelo para mim que tenho que entender para aprender. Decorar é algo muito complicado para esse cérebro aqui…rs. Que bom que voltou a postar! Gosto muito dos seus textos e da China que vc nos mostra! Zai jiàn!

    • Obrigado pelo carinho, Christine! Também me tornei fã do seu blog. Sua escrita amadureceu muito com o tempo. Quando se pratica algo com paixão, acaba-se adquirindo desenvoltura e novas maneiras de se ver o mundo surgem enredadas em palavras e frases que não imaginávamos ser capazes de expressar.

  3. Meu caro, gostando cada vez mais de ler seu blog e aventuras! Parabens pelo dom!

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