Crônica

Made in China


Enquanto a inspiração não volta, publico uma crônica do Ferreira Gullar, que li na Folha de São Paulo, durante uma viagem ao Brasil, no ano passado.

O texto vai de encontro ao tema do livro  Poorly Made in China (Pobremente Feito na China), de Paul Midler – vejam as resenhas do site The Economist e do blog de Danwei (ambas em inglês). O autor Paul Midler, fluente no idioma chinês, que durante  anos trabalhou como consultor para empresas americanas, deslinda os truques e as artimanhas empregados pelas fábricas chinesas a fim de conseguir fechar um contrato. É mostrado, também, o descomprometimento de muitas delas com a qualidade, como embalagem barata, fórmulas químicas alteradas, padrões sanitários restringidos, dentre outros exemplos que desvalorizam o produto .

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São Paulo, domingo, 04 de julho de 2010

FERREIRA GULLAR

Made in China


Não resta dúvida, tudo o que se fabrica na China não dura. O difícil, porém, é escapar dessa armadilha


ENTREI NUMA loja para comprar um par de sapatos e me encaminhei à prateleira onde havia sapatos de sola e couro, do tipo tradicional. Os preços variavam de R$ 80 a R$ 120, mas, na prateleira ao lado, havia outros, também de sola e couro, que custavam menos da metade, entre R$ 30 e R$ 40. Chegou um freguês e começou a examiná-los, quando um homem se aproximou dele e falou: “Não compre isso, é sapato chinês, não presta. Comprei um par desses que durou exatamente dois meses”.

Ouvi aquilo e concordei, mercadoria feita na China não presta. No meu caso não foi sapato, foi guarda-chuva. Como não tenho paciência de ir de loja em loja à procura do que necessito comprar, sou presa fácil dos camelôs. Assim foi que, como perdera meu décimo guarda-chuva, adquiri o primeiro que me foi oferecido na esquina. Custava R$ 5, uma pechincha, mas, em compensação, não durou três meses. Era chinês e eu não sabia e, por isso, comprei outro, de outro camelô, que durou menos ainda. Decidi, então, comprar numa loja e foi isso o que fiz. Esse custou R$ 20 e não durou mais que os outros. Fui verificar a origem dele e lá estava o “made in China”.

Não resta dúvida, tudo o que se fabrica na China não dura. O difícil, porém, é escapar da armadilha, já que mesmo os produtos com marca conhecida -que você identifica como sendo alemã ou inglesa ou norte-americana- são feitos na China, porque lá se pagam os mais baixos salários do mundo, suas mercadorias invadiram todos os países e desbancaram os fabricantes nacionais.
Esses fabricantes, para não falirem, transferiram suas fábricas para a China, onde produzem artigos de preços competitivos e de baixa qualidade.

Este é um fenômeno surpreendente com que se defronta o mundo atual: surgiu no planeta um país onde a classe operária é cativa do Estado e, por isso, ganha o baixo salário que o governo determina. E esse governo é comunista! Como pode um regime marxista entregar a classe operária à exploração capitalista, quando o sonho de Marx era libertá-la? Pois é, em vez da ditadura do proletariado, a ditadura contra o proletariado.

Quando o meu quarto guarda-chuva quebrou, dei-me ao trabalho de verificar por que quebrara: as hastes de alumínio eram tão delgadas que foi até um milagre terem durado tanto. Nunca mais comprei nada que suspeitasse ter sido feito na China e só compro em loja, onde o risco é menor.
Foi, portanto, numa sucursal das Lojas Americanas que adquiri um aquecedor Britania para enfrentar o frio que cedo começou aqui no Rio. Frio pode ser exagero da minha parte, porque, para outros, a temperatura estava amena. É que eles não são, como eu, só pele e osso.

O aquecedor era bonito, leve, fácil de transportar de um cômodo a outro. Depois, como o tempo melhorou, deixei o aquecedor de lado, até recentemente, quando esfriou para valer. Liguei duas, três vezes; na quarta, ele pifou. Otimista que sou, não quis acreditar, dei um tempo, quem sabe ele voltaria a acender. Não voltou.
Como ainda estava na garantia, fui à procura da nota de compra e achei-a, mas -coisa curiosa- tudo o que nela estava escrito se apagara. Agora é assim: as notas que saem daquela maquininha, apagam com poucos meses -e como vou eu agora provar que comprei o aquecedor nas Lojas Americanas? Não posso, é claro. Em matéria de safadeza, o comércio capitalista é mesmo invencível!

O jeito foi levar o aquecedor ao Lucas, que conserta esses aparelhos, aqui perto de casa. Ele o abriu, examinou e verificou que três resistências haviam queimado. Telefonou, então, para lojas autorizadas, mas nenhuma delas tinha as tais resistências, que são importadas e não se sabe quando voltarão a recebê-las.
Diante disso, sem poder trocar o aquecedor nem consertá-lo, saí em campo atrás de outro para comprá-lo, desde que não fosse Britania. Andei por Copacabana inteira, fui de loja em loja e a resposta era a mesma: aquecedor, não temos mais, acabou o estoque. Sem alternativa, voltei à loja onde fizera a compra malograda e somente lá havia aquecedores, mas iguais ao que pifara. Pelo sim, pelo não, decidi verificar a procedência deles: “made in China”.
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1 comentário em “Made in China

  1. A CHINA REINVENTOU A CULTURA CAPITALISTA ,AONDE O ENSAIO TECNICO DETERMINA A VIDA “ÚTIL”MINÍMA POSSIVEL PARA QUEBRAR LOGO E CONSUMIR MAIS ,SEUS PRODUTOS SÃO FEITOS COM MÃO DE OBRA “ESCRAVA”PARA ENRIQUECER OS BURGUESES DO MUNDO INTEIRO QUE TEM MANDADO MANUFATURAR MARCAS FAMOSAS A BAIXO CUSTO E DEPOIS SÃO VENDIDAS DE VOLTA A TODO MUNDO GERANDO DESEMPREGO NA EUROPA,E DEMAIS PAISES EMPRESSARIOS “ESPERTOS”VEEM QUEBRANDO A ECONÔMIA DE ALGUNS PAISES”FECHANDO A INDUSTRIA NACIONAL COM A VENDA DE LIXO”RECICLADO CHINÊS E PRODUTOS DESCARTÁVEIS ,AONDE VAMOS PARAR?

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