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Cunhã – 姑娘 [gu niang]

     Dizem que a primeira meretriz a gente nunca esquece. No meu caso não foi diferente. O encontro com a minha deu-se entre as páginas do livro O Grande Motim, cujo clássico filme já tinha visto na Sessão Coruja. Para dizer a verdade, não se tratava de uma meretriz de carne e osso, tampouco era fruto de fantasias onanísticas, – aquelas solitárias fantasias da puberdade. À primeira lida, meretriz -a palavra – pareceu-me um título nobre tal qual imperatriz ou embaixatriz, talvez por ingênua associação sonora. Após consultar o pai dos burros tudo ficou mais claro.
     O hábito de coletar palavras teve início na 6.a séria, por sugestão da professora de língua portuguesa, durante as aulas de redação. A partir de então, meus bolsos passaram a ficar cheios de papéis de rascunho – já que os livros que lia eram todos emprestados de bibliotecas. Com a perícia de um lexicógrafo, transcrevia com garranchos os verbetes do Aurélio.  Assim foi que com Drummond aprendi o termo inefável, sempre constante em seus poemas, e recalcitrante. Com Machado de Assis vieram piparotes e elocubrações taciturnas. Casmurro desdobrou-se em contumaz, que por sua vez virou poema. A literatura clássica brasileira e portuguesa contribuíram com algibeiras e gelosias. No entanto, não me lembro como cheguei à protagonista da presente crônica. Pertencente ao vocabuario da região amazônica,  cunhã serve para designar moças ou meninas
.
     Tudo se remonta à época em que trabalhei (entre 2003 e 2005) numa das dezenas de câmaras de comércio que foram abertas desde que Brasil e China começaram a estreitar laços comerciais. Acontece que lá tinha um senhor chinês, alto, escuálido e glutão, cuja voz fanha ecoava pelo escritório como um gramofone a reproduzir velhas canções chinesas. Notei que ele sempre se dirigia às chinesas, que ali trabalhavam, como "xiao guniang", ou seja, "moça, jovem, menina". Quando me dei conta do significado de "xiao guniang", logo me lembrei da designação tupi  para cunhã. Fiquei intrigado com a coincidência, porém não cheguei a me aprofundar no tema em busca de informações que fundamentassem as semelhanças entre os termos em chinês e português.

BRASIL CHINES
     Recentemente, tomei conhecimento do livro Brasil Chinês: as civilizações perdidas da Amazônia, Editora Lewi, escrito por Luiz Marcos Wanke e Luiz Ernesto Wanke. Segundo a sinopse da obra, haveria vestígios de que os chineses chegaram à América Latina muito antes que Colombo. Vasos produzidos por tribos indígenas da região amazônica brasileira teriam registros de caracteres chineses
. Outro indício seria o fato de existir uma tribo praticante do taoísmo, religião milenar chinesa fundada por Lao Tze.
     Os autores não abordam a mútua influência linguística que um idioma teria tido sobre o outro. Tomando o caso das palavras cunhã e guniang [姑娘], por exemplo, qual das duas teria sido legado de uma cultura à outra.
Chá também provém do idioma chinês, que coincidentemente em pinyin – sistema fonético do mandarim – se grafa da mesma maneira que em português [chá], diferenciando-se apenas na pronúncia e no tom.

     Outro autor que sustenta terem os chineses chegado às Américas antes que os europeus é Gavin Menzies, no livro 1421: O  Ano  Que A China Descobriu O Mundo. Iniciei a leitura desta obra recentemente, portanto volto ao tema assim que concluir a navegação por suas páginas. Por enquanto, fica apenas a dúvida de o porque ter tal assunto vindo à tona somente agora, justamente quando a China recuperou o status que lhe faz jus ao nome: Império do Meio.

 1421 

 Para finalizar, segue um link para a tradução de uma canção chinesa, intitulada Bela Cunhã, que serve para ilustrar a semelhença fonética e semântica de ambas palavras em português e chinês.

Admirador da cultura chinesa, tenho me esforçado para desmistificar e diminuir as distâncias entre esses dois países promissores perante o atual cenário econômico mundial: Brasil e China. Estudo mandarim desde 1997. Autodidata, acredito que não existam atalhos para o conhecimento. Não obstante, o exercício da aprendizagem, em si, e a perseverança encurtam caminhos, aumentam a concentração e tornam o percurso como o de um passeio matinal ensolarado. Além de atuar como tradutor-intérprete, sou consultor e intermedio negócios na área de importação-exportação.

1 comentário em “Cunhã – 姑娘 [gu niang]

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